Canção para Iara

Adolfo Sidnei Wyse

A minha voz é a minha guitarra. Conheço bem o seu timbre, a sua entonação. Sei, por exemplo, quando estou  triste. Ela soa como uma milonga, um tango, uma balada.

      Através dela me comunico, mesmo quando me calo.  Quando me sinto amoroso, ela soa como um rio murmurando. Quando inflamado, ela atinge o tom dos  pregadores, dos poetas bêbados, dos protestantes.  Quando estou irritado, ela soa suja e rabugenta.     

        Às vezes, eu sinto que ela soa estranha aos meus ouvidos. Percebo, então, que esta voz não é só minha. E ao escutar, reconheço a multidão gemendo a sua solidão.

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