Cartas de Jharia

António M. Rebordão Montalvo

Subitamente, a dez metros de nós, uma mulher saltou para a pira funerária do marido e ficou a arder com o seu cadáver. 

Vendo aquele salto inesperado, Katherine lançou um grito e escondeu, horrorizada, a cara sob o lenço branco que lhe cobria o cabelo. 

Desejei naquele momento que minha mãe não tivesse presenciado um sacrifício tão pungente como aquele. 

O senhor Kamadeva segredou-me:

— É o sati — prática de que eu já ouvira falar. 

Explicou-nos que a morte pelo sati surgira há mais de 700 anos, numa época em que os homens morriam nas batalhas e as suas mulheres não queriam ser levadas pelos vencedores.

A noite caiu sem que toda a pira tivesse ardido e nenhum de nós abandonou a margem do rio.

Dificilmente se encontrarão no mundo imagens tão impressionantes como as daquelas piras a incendiar a noite escura, iluminando com as suas labaredas as águas sagradas do Ganges.

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