Complexos de solidão

Filipe Novelha

Baixo os olhos

para te deixar passar.

Ignoro os sinais que me dás.

Imagino o real e dele tenho medo.

Vivo paralelo

entre o que quero

e o que a vida me dá.

Inodoro me afirmo.

Não ouso mudar ninguém

e espero que de mim não se aproximem.

Vivo bem sem o cheiro das gentes.

Sinto ter estado ausente, sinto não sentir.

Sinto não estar presente. Sinto ser um ser vivente.

Não sinto, portanto. O que é sentir então

senão o não sentir e sentir aí sentido.

Viver é reprimir o sentir e mentir para o poder viver.

Trata-se de sobreviver.

A arte de acordar depois

de outro dia que se esforçou por ser diferente.

E que nos enganou na tentativa.

Acordar depois de dormir

e não o seu contrário vigente,

o de justificar o estar a dormir

logo depois,

de estar acordado

a não viver.

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