Desamores
Manuel Soares Traquina
A minha Luísa tinha casado.
Não esperou por mim.
Tinha casado com outro. Era de outro. Senti-me abandonado, viúvo, morto.
O que senti foi que a sua mão ficou de repente inerte e o seu olhar parado, fixado em mim, um olhar muito ansioso. Chamei-a, não reagiu. Tentei levantar-me para chamar a enfermeira, mas nesse momento tive a sensação de que flutuava; o chão sumira-se e toda a realidade se esfumava.
Então, vi-me de mão dada com a minha Luísa a flutuar, sem destino, por entre as nuvens.
O tipo, de quem se divorciara recentemente, era uma besta. Infernizara-lhe a vida e chegou a bater-lhe, conforme confessara à Patrícia. Deixara-o, mas ele continuava a pedir-lhe que regressasse. E a parva a confessar que ainda gostava dele. Um dia ainda a via no jornal, vítima de um caso trágico de violência doméstica.
