Histórias que só eu sei

Teresa do Amparo Ferreira

Em certa viagem de elétrico, deparou-se com uma rapariga a olhá-lo de forma que ele não compreendia. Olhar fixo, oblíquo e penetrante. Dos lábios, vermelhos e carnudos, soltava um sorriso discreto. Mal mostrava os dentes, brancos e reluzentes. Meneava, com trejeitos, fartos cabelos lisos e longos, negros como a noite. Por debaixo de uma blusa de rendas – saltavam aos olhos –, um par de roliços seios. A cintura era delgada como a de uma vespa, ancorada em coxas fartas que transpareciam por debaixo de uma saia justa, que batia um pouco acima dos joelhos. As mãos eram esguias e longas; a tez, alva como a neve da serra da Nogueira. 

Que figura inquietante! Por que razão estaria a olhá-lo, sendo ele de tão fraca aparência, bem o sabia? Deixou-se estar a ruminar no assunto, sem se mover do lugar de onde vinha sentado, junto à janela. O lugar ao lado vagara, saíra um homem na paragem. A mulher, delicadamente, pediu se podia sentar-se. Não disse que sim nem que não – ti Adérito. O silêncio foi entendido como con­sentimento. 

O homem permanecia estático e como se nada fora com ele, mas só na aparência, já que o coração lhe pulava no peito. “Que quererá o dianho da mulher?”, pensava entre dentes. “Se calhar é alguma inquilina e eu não me lembro dela?! Mas que diabo se passa? É melhor esperar um pouco a ver se ela abre a boca, se não, saio e depois apanho outro. Raios na mulher! Está a pôr-me doido.”


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