Jano e Raia

Mariposa

ANOMALIA

Tudo começou um dia quando tentei informar os meus pais sobre o mau funcionamento da minha visão, durante um passeio de carro, dizendo: “Estou a ver estas árvores como se fosse um quadro”.

Só? serviu para confirmarem com uns monossílabos e alguns gestos, discretamente, pedagógicos, sendo que essa declaração ficou devi­damente enterrada no momento, sem que tivesse provocado quais­quer danos acrescidos, para além de uma visita ao oftalmologista.

No entanto essas visões distorcidas continuaram, sem que escolhes­sem lugar ou tempo e importunavam a minha pacata existência, sen­tindo-as quase como se “estivessem em bicos de pés e de dedo no ar à espera de atendimento”, cujo tratamento familiar incluía um menu composto por sandes de atum com tomate na praia.

Assim, após várias edições de rascunhos espalhados por todo o lado e ao longo dos anos, com um final garantido no caixote do lixo ou no da reciclagem, escaparam alguns que deixei que se alojassem de­baixo de um teto/título a que dei o nome de “Jano e Raia”. Inaugurei, então, a honra de acolher, como agradável anfitriã, as consequências que surgiram de ultrapassar alguns bons limites e aceitar determina­das mudanças para o melhor do mundo das anomalias, sem a convi­vência obrigatória com o tomate e o atum no pão, mas de preferência com muita praia e poesia.

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