Poesia Momentânea

Beatriz Moreno

Quando sentires saudades

busca por mim

no Cemitério dos Poetas

onde jazem

os mais loucos dos profetas


Na entrada

está uma placa

que diz

"não lhes resta mais nada"

nem corpo, nem carne

nem génio, nem alma


O coração já não bate

está parado

magoado

e a cabeça já não erra

as palavras fraternais

foram com eles para à terra


À noite reúnem-se

deambulam pela cidade

e choram juntos

as lágrimas são poeira

os passos são vento

o toque um devaneio


Os poetas (mortos)

apaixonam-se

todos os dias pela tristeza

no olhar alheio

mas não se tocam

nem tal seria possível


Eles pensam

melancolicamente

no que nunca fizeram

no que nunca deram

mas deram e fizeram

e ninguém valorizou


Ainda de noite

vão às casas

daqueles que os esqueceram

e plantam a semente

do sofrimento

como uma maldição


Depois visitam

os que ainda os amam

e que por eles chamam

que vagueiam em desalento

e consolam-nos com uma rima

que os acalma até ao esquecimento


De madrugada

não lhes resta nada

voltam para casa

a citar versos em sintonia

quase em alegria

que jamais terão.

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