Concerto para Sanca João
Carlos Alberto Correia
Guiné e metrópole, dois universos distantes que a guerra colonial juntou na existência de milhares de pessoas. Sanca João é uma personagem secundária, um prisioneiro que faz mudar a vida do narrador, voluntário de guerra em Cacondo. Este leva-nos numa viagem pelas suas recordações, que afinal acabamos por reconhecer também como nossas: partilhamos a sua infância, adolescência e juventude, as primeiras vivências com os pais e vizinhos, os amigos e os amores, as dúvidas e as resoluções. O romance tem um ponto de viragem na ida do protagonista para África, onde é direta e totalmente imerso na guerra colonial. Por fim, o seu processo de politização afasta-o dos ideais primeiros que o moveram, levando-o a um papel ativo na luta da resistência e, posteriormente, no PREC.
A narrativa, riquíssima, é um fresco da vida nas décadas de 50, 60 e 70. Trata-se de um grande romance de guerra e de amor, com uma linguagem poderosamente criativa a que se junta, para maior enriquecimento, uma pluralidade de ângulos entre os quais o do antropólogo, uma das áreas de formação do autor. Dispomos assim de uma janela temporal que nos permite apreciar valores, comportamentos e atividades pertencentes a um fascinante mundo, entretanto desaparecido.
Este é o romance de quem viveu por dentro, com emoções, sentimentos, ideias, esperanças e dores, os acontecimentos antes e os acontecimentos após a revolução do 25 de abril. A história, que tem como limite final o 25 de novembro, está construída ficcionalmente de forma magistral.
