Contos e (re)contos

MARIA ABREU MORAIS

… O Fadista, abrigado à sombra de um salgueiro, língua de fora e olho pregado ao rebanho; nada, que as bichas não eram de fiar! Em vem não vem, tocava-lhes a veneta e disparavam tapada fora; e vá lá saber-se onde estouvamento de cabra a leva!

Mateus ficou sem fala! Aquela não! Azamboado de todo, de repente, um frio na espinha e um medo na alma … ele, pai?! Sentou-se, pesadamente, no degrau da porta, pernas bambas; o miolo quente que nem açorda na panela, assustado como coelho bravo com perdigueiro no farejo!

Uma quietude assedada envolvia as redondezas; dir-se-ia que toda a en­costa adormecera com o canto entaramelado da mulher, apenas acompa­nhado pelo chilreio dos melros e tentilhões, em voos cruzados de pinheiro em pinheiro. De súbito, o corpo retesou-se, os braços esticaram-se ten­tando alcançar uma sombra fugidia, e num fio de voz, articulou:

- Ê bi ele! Ê bi ele …

Memórias… temas à tona na segunda metade dos anos 60, vivências rebuscadas, guardadas em cadernos e notas de perfis, de costumes, de falas. Cinzelados os perfis, fiéis os costumes, respeitadas as falas, no ob­jectivo de reproduzir, no possível, expressões e palavras. Os sentimentos, esses foram esburgados da espiga das almas, grãos para emoldurar no­vas personagens. Cantos e recantos, natureza e caminhos transportados do então, para reviverem, povoando a inspiração, nas memórias de agora.

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