Nada morre duas vezes

Fontes de Carvalho

"Ricardo sentiu-se no fim da estrada. Estava sozinho com a sua dor. Era já tarde quando telefonou para casa dos tios a dizer que dormiria em São Bernardo. Foi para São Paulo, onde chegou, por volta das duas da manhã e dormiu essa noite na Praça da Sé, encostado à parede da catedral.( A sua primeira noite como sem-abrigo).A essa hora só havia prostitutas, cafe­tões, bêbados e alguns sem-abrigo".

"Subiu para uma árvore frondosa e escondeu-se entre os ramos de onde podia ver o corpo inerte de Maurício atravessado na estrada. Rezava a todos os Santinhos para que alguém apa­recesse depressa e o levasse para o hospital, porque sangrava muito e tinha deixado um lastro de sangue, ao ser arrastado. Finalmente parou um carro castanho, de onde saíram dois ho­mens que meteram o corpo dentro do carro. Arrancaram a toda a velocidade em direção a Santa Maria de Jetibá, que ficaria a uns quinze quilómetros.

Ricardo sentiu-se aliviado, mas não sabia se deveria continuar em frente ou voltar para trás. Receava que Maurício inventasse uma história qualquer, saísse nos jornais e a polícia começasse a procurá-lo. Na cabeça dele passou logo um filme com polícias fortemente armados, com cães raivosos e popula­res furiosos, numa caça ao homem. A sua imaginação fértil só lhe aumentava a sensação de horror. O pânico tomou conta dele e Ricardo ficou apavorado, em grande sofrimento. Meteu-se mato adentro, na sentido Nordeste, em direcção ao deserto do seu vazio e do seu futuro".

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