O Destino Revelado

Carlos Vilela

Já nada resta da Jerusalém salpicada de árvores, jardins floridos, sombras aprazíveis, tudo

estava decepado, queimado. Suspirei cansado, entrei na tenda, ajoelhei e tombei para cima

das almofadas espalhadas, afundei-me no sono. As muralhas tornaram-se na prisão dos

judeus e eu prisioneiro do meu sono, de sonhos tingidos de vermelho-sangue, de gritos que

saíam dos corpos magros de fome, de sede e de doenças mórbidas. Sonho com uma realidade

sonhada ou um sonho que é um pesadelo real. A cabeça anda às voltas e arrasta o

pensamento na mesma desordem. Estes distúrbios chegam sempre de noite como os ladrões.

No pesadelo ergo o gládio para duas vacas amarradas, de úberes inchados, espeto-lhes até

esguicharem leite e sangue para o meu rosto, lambo-os com igual prazer até perder o sentido

dos limites do que é humano e rio como um demente, corro pela cidade sem ruas nem

esquinas e grito: Sou o Alba Louco! Subo às casas que já não existem, assomo às janelas

escancaradas sobre o vazio cheio de horrores e sinto-me bem, vencedor, legionário, sou o

centurião Alba Louco! Olho a cidade esventrada, é um campo raso coberto por um manto

negro, compacto, cortado por nuvens de centelhas que esvoaçam ao sabor das labaredas que

enegrecem os escombros, destroços de vidas e entulho de habitações evisceradas. Pedaços

de corpos fumegam atolados numa massa sem cor, exalando um fedor açucarado de carne

humana ressequida, esturricada, preta. Quero saltar do pesadelo para um sonho normal e não

consigo. Quero acordar para outra realidade e ainda menos consigo. Onde está a estúpida da

seta que me atingirá, que me libertará destas evocações-pesadelos?

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